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A Marie Claire já mostrou que os aplicativos de apostas online expõem mulheres de todo o Brasil ao endividamento e potencializa as desigualdades socioeconômicas que as afetam. Mas quando o assunto são as periferias urbanas, o problema é ainda mais profundo e desemboca em casos de violência doméstica e patrimonial, segundo um estudo realizado por David Nemer, antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos.

Entre 2023 a 2025, o pesquisador viu de perto como as plataformas de jogos de azar acirraram as dinâmicas de gênero e entranharam-se na região conhecida como Território do Bem, localidade que reúne comunidades periféricas no centro-oeste de Vitória, capital do Espírito Santo.

“Os próprios homens descrevem um roteiro conhecido, em que a perda [do dinheiro apostado] leva ao bar, o bar ao silêncio em casa e o silêncio à briga. Registramos separações e casamentos em crise”, conta Nemer em entrevista à Marie Claire.

No território pesquisado, mais de 84% das famílias viviam com menos de três salários mínimos em 2019. Segundo o antropólogo, isso faz com que o dinheiro destinado às apostas muitas vezes venha de gastos básicos, como fraldas e gás, já que essas famílias não contam com outra reserva financeira.

“Uma manicure que acompanhei mantinha onze aplicativos no mesmo celular. Muitas são mães solo que recorrem a esses jogos para tentar tirar uma renda”, ele diz.

É nesse contexto de vulnerabilidade social e econômica que muitas mulheres e seus familiares recorrem às plataformas de jogos online. Nelas, veem a possibilidade de aumentar a renda e acessar formas de lazer e consumo que antes pareciam fora de alcance.

“Quem ganha consegue pagar a necessidade e ainda um pequeno prazer, e quem perde fica sem as duas coisas”, observa o antropólogo.

Nesse sentido, Nemer avalia as bets como uma espécie de infraestrutura financeira paralela, que se encaixou nos circuitos que as famílias periféricas sempre usaram para sobreviver, como o empréstimo entre vizinhas e a senha do banco confiada ao filho.

“Muitos apostadores sabem que a plataforma sempre sai ganhando e continuam apostando, porque ela é a única estrutura à vista que promete transformar cinqueta reais em mil”, diz.

Além disso, ele afirma que, entre as 67 pessoas com quem ele e a equipe da Tec Perifa conversaram, nenhuma defendeu a indústria de jogos online.

Um terço propôs, de alguma forma, tratar as bets como o cigarro, com restrições mais duras à publicidade. Outros sugeriram estabelecer limites de aposta atrelados à renda e ao CPF, além da criação de um serviço de tratamento nos moldes dos Alcoólicos Anônimos.

“Os moradores chegaram sozinhos às medidas que a saúde pública recomenda, e ninguém que escreve as regras perguntou a eles”, observa o pesquisador.

Mulheres são duplamente afetadas

A pesquisa também mostrou que os efeitos das apostas se espalham por toda a família. As mulheres acabam duplamente afetadas: tanto pelas próprias perdas quanto quando companheiros ou outros familiares usam recursos que pertencem a elas.

Em um dos casos, uma mãe que brigava com o filho por causa do vício em bets acabou mais envolvida do que ele e hoje está endividada. Já outra, que trabalha como faxineira, juntou economias durante 20 anos e viu sua reserva financeira se esgotar depois de compartilhar a senha do banco com o filho, que acabou perdendo 20 mil reais em apostas no Tigrinho.

“Nas famílias que acompanhamos, a mulher fica no fim da cadeia, como credora e reserva de emergência da casa, e a perda aparece no caixa dela, em forma de conta atrasada e saldo zerado”, explica o pesquisador.

Além disso, Nemer observou que os homens chegam às bets por meio do futebol e apostam em público, como prova de conhecimento e de que sustentam a casa. Já as mulheres costumam se envolver com os jogos de cassino, como o Tigrinho, e fazem apostas nas brechas do trabalho doméstico.

“Esses jogos estão entre os produtos mais agressivamente projetados das plataformas, e mesmo assim a perda de uma mulher costuma ser tratada como bobagem, enquanto a do homem vira azar num jogo de inteligência”, observa o antropólogo.

Violência doméstica e patrimonial

Na análise, aposta e conflito aparecem lado a lado nos lares, em uma dinâmica que costuma se repetir. Primeiro, a aposta consome o dinheiro comum da casa e, depois, a confiança. A partir daí, a convivência entra em crise.

Nesse cenário, a violência de gênero ganha espaço. As mulheres passam a ser vítimas dentro de casa não apenas de agressões físicas, mas também de violência patrimonial, além de ficarem vulneráveis ao abandono por parte dos parceiros.

Em um dos casos acompanhados pelo pesquisador, uma trabalhadora da limpeza perdeu o salário em apostas ao tentar dobrar a própria renda. Depois de contar ao marido o que havia acontecido, ele passou a controlar o dinheiro dela e ficou com o pagamento do mês seguinte.

Em outro caso, uma mulher relatou que o marido pegou seu celular e transferiu R$ 400 de sua conta, via Pix, sem autorização. Em cerca de meia hora, ele perdeu todo o valor em apostas. Ao ser confrontado, danificou o aparelho, segurou a mulher pelo braço e afirmou que era ele quem mandava na casa.

“Esse foi o relato mais explícito de agressão que ouvi. Ela contou: ‘Doeu e ficou roxo. Eu devia ter mandado ele embora aquela hora, depois aceitei as desculpas. Hoje estamos separados’”, conta Nemer.

Outra história acompanhada pelo antropólogo revela ainda o contorno trágico desse cenário: uma comerciante perdeu as lojas e se endividou com um agiota, depois o marido foi embora e levou o filho. A mulher adoeceu e morreu internada, ainda sendo cobrada pelo agiota.

“O ciclo de expectativa e perda desenhado pelas plataformas atravessa qualquer pessoa que ele captura, homem ou mulher. O gênero decide quem arca com as consequências, e quando a casa se rompe, a mulher quase sempre fica com os filhos e as dívidas”, finaliza.



Fonte: Marie Clarie


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