
O tambaqui (Colossoma macropomum), um dos peixes mais consumidos no Amazonas, passou a integrar a lista nacional de espécies da fauna ameaçadas de extinção na categoria “Vulnerável” (VU). A classificação indica risco de redução das populações naturais e levou a um alerta sobre a situação dos estoques pesqueiros na Amazônia.
A inclusão consta da Portaria GM/MMA nº 1.667/2026, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, elaborada a partir de avaliações técnicas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Segundo a avaliação do ICMBio, fatores como pesca não manejada, captura de exemplares abaixo do tamanho mínimo, degradação de áreas de várzea e falta de monitoramento dos desembarques estão entre as principais ameaças à espécie.
Modelos populacionais utilizados na avaliação projetam ainda uma redução global de 43,4% da população da espécie em três tempos geracionais. O tempo geracional do tambaqui foi estimado em 22 anos. A classificação como vulnerável, porém, não significa que a espécie esteja prestes a desaparecer de todos os rios da Amazônia.
“Não temos atualmente o levantamento completo de dados em nossos rios, ou seja, um acompanhamento de dados estatísticos das populações, nem do volume do desembarque dos tambaquis pescados na natureza que chega nos mercados da calha do rio Amazonas.”
Para Edinbergh, estudos pontuais apontam percepção de redução dos estoques, mas ainda não seriam suficientes para afirmar que ocorreu um declínio acentuado das populações em toda a Amazônia.
“Por isso, apesar da percepção de diminuição desses estoques, por meio de alguns estudos pontuais em poucas áreas de várzea próximas à região da Amazônia Central, ainda são dados insuficientes para afirmarmos esse declínio como acentuado nas populações de tambaqui na natureza.”
Outro dado chama atenção: cerca de 61% da área de ocorrência do tambaqui está em locais sem proteção formal, onde há pesca não manejada. Outros 21% estão em Unidades de Conservação e 18% em Terras Indígenas.
O ICMBio classifica a população da espécie como “declinando”.
Espécie depende de grandes áreas para completar ciclo de vida
Segundo Edinbergh, o peixe precisa de grandes extensões de rios para completar seu ciclo de vida, que envolve a migração para áreas de desova, dispersão de ovos e larvas e posterior entrada dos juvenis em áreas alagadas, onde ocorre alimentação e crescimento.
“Pois trata-se de uma espécie de peixe migrador que precisa de áreas de mais de 500 km de rio para completar todo o seu ciclo de vida, que inclui migração rio acima para desovar, depois dispersão de ovos e larvas de peixes rio abaixo para entrar na várzea durante a enchente, distribuição dos juvenis por áreas de alimentação e crescimento nos lagos e igapós.”
Além da pesca, o especialista aponta outros fatores que podem afetar esses ambientes, como aquecimento global, construção de barragens e pontes e garimpo.
Em Manaus, a maior parte do tambaqui comercializado atualmente é proveniente da piscicultura.
Para Edinbergh, a criação em cativeiro pode ajudar a garantir o abastecimento, mas não elimina a necessidade de preservar os ambientes naturais onde a espécie ocorre.
“A produção controlada da piscicultura resolve o problema do abastecimento para a população por meio dos restaurantes, mas distrai os olhares de proteção dos ambientes naturais, o que pode causar uma diminuição ou negligência aos ecossistemas aquáticos, em virtude de se gerar uma falsa impressão de que o problema da espécie está resolvido, e não está na realidade.”
O ICMBio também aponta que eventuais escapes de peixes criados em cativeiro podem representar riscos relacionados à transmissão de patógenos e a questões genéticas.
Edinbergh defende cautela na adoção de medidas que possam atingir diretamente pescadores e comunidades ribeirinhas.
Para o especialista, é necessário ampliar o conhecimento sobre os estoques antes da adoção de medidas abrangentes.
“Finalmente, o que podemos afirmar nesse momento é cautela ao se proibir, pois existe um alerta da necessidade de preservação em áreas não protegidas (60%), mas, por outro lado, existem populações de ribeirinhos e pescadores que dependem dessa atividade e desse recurso para sobreviver.”
Entre as prioridades apontadas pelo biólogo estão o mapeamento de áreas sem proteção, reforço da fiscalização dos desembarques e produção de estatísticas mais completas sobre a pesca.
Tambaqui pode chegar a 45 quilos
A alimentação muda ao longo do desenvolvimento. A espécie consome zooplâncton, folhas, sementes e frutos, sendo sementes e frutos itens frequentes na alimentação dos exemplares adultos. A classificação como vulnerável coloca o tambaqui no centro de um debate que envolve conservação ambiental, pesca, abastecimento, piscicultura e sobrevivência econômica de comunidades amazônicas.
AM POST*

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