© Fernando Frazão/Agência Brasil


Uma pesquisa recente no litoral do Paraná trouxe à tona uma preocupação ambiental e de saúde pública: a presença de mercúrio e chumbo em amostras de caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie vital para o ecossistema de manguezal e para a economia local. A descoberta, realizada por pesquisadores do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) em parceria com a Universidade Estadual do Paraná (Unespar), acende um alerta sobre a qualidade dos alimentos marinhos e os possíveis impactos no consumo humano, especialmente em regiões onde a captura do crustáceo é uma tradição e fonte de sustento.

O caranguejo-uçá não é apenas um componente crucial da biodiversidade; ele representa um pilar cultural e econômico para as comunidades caiçaras. Pescadores como Antônio de Souza, conhecido como Pano, que há quase cinco décadas se dedica à cata do caranguejo nos manguezais paranaenses, dependem dessa atividade para o seu “ganha-pão”. A temporada de captura, que se estende de dezembro a meados de março, é um período de intensa atividade, movimentando milhões de reais no estado. Em 2024, a pesca de caranguejo gerou aproximadamente R$ 9,8 milhões no Paraná, com destaque para cidades como Guaraqueçaba, Guaratuba, Paranaguá, Antonina e Pontal do Paraná.


A vida e a subsistência em torno do caranguejo

A relação dos caiçaras com o manguezal e o caranguejo-uçá é profunda, marcada por um respeito intrínseco pela natureza e a necessidade de preservação. Antônio de Souza, colaborador do Programa Rebimar, enfatiza a importância do defeso, o período anual de proibição da captura, como medida essencial para garantir a reprodução da espécie. “A gente não deixa ninguém mexer no mangue, não pode tirar o caranguejo, senão, mais tarde, meu filho, meu neto vão querer comer um caranguejo, e não terá”, afirma, demonstrando a visão de longo prazo e a preocupação com as futuras gerações.

O Rebimar, desenvolvido pela Associação Mar Brasil e patrocinado voluntariamente pelo Programa Socioambiental da Petrobras desde 2009, atua no monitoramento da saúde do mangue e de seus habitantes. Essa colaboração entre pescadores e pesquisadores é fundamental para a coleta de dados e a compreensão dos desafios ambientais que afetam a região, que é vizinha de áreas com características diversas, como o movimentado Porto de Paranaguá, a Ilha da Cotinga (terra indígena) e a turística Ilha do Mel.


Descoberta de contaminantes: mercúrio e chumbo

A pesquisa liderada pela professora Cassiana Baptista Metri, da Unespar e pesquisadora do Rebimar, analisou a composição química do caranguejo-uçá. Inicialmente, foram identificadas concentrações de elementos importantes para o corpo humano, como zinco, manganês e magnésio. No entanto, o estudo revelou também a presença de contaminantes indesejáveis: mercúrio e chumbo.

A pesquisadora ressalta que a detecção desses metais pesados não foi uniforme, variando de acordo com o local de coleta e a época do ano. Essa variabilidade sugere que as fontes de contaminação podem ser pontuais ou influenciadas por fatores sazonais e ambientais específicos de cada área do manguezal. A proximidade com o Porto de Paranaguá, por exemplo, com seu intenso tráfego de navios e atividades industriais, é um fator que não pode ser descartado nas investigações sobre a origem desses contaminantes.


Impactos na saúde humana e ambiental

Embora a identificação de mercúrio e chumbo seja um motivo de alerta, a professora Cassiana Metri enfatiza a necessidade de estudos mais aprofundados para determinar o real impacto no consumo humano. “A gente tentar entender o quanto que o consumo de um caranguejo potencialmente contaminado pode prejudicar a saúde”, explica. Ela observa que o consumo do caranguejo-uçá na região é sazonal, concentrando-se tradicionalmente na época do verão, fora do período de defeso.

Contudo, a preocupação persiste, especialmente porque alguns metais pesados, como o mercúrio e o chumbo, podem se acumular no organismo humano e não são facilmente eliminados. “É diferente de quando você come uma coisa todo dia. Agora a gente vai fazer um cálculo da quantidade, porque tem alguns metais que vão acumulando no organismo e não são eliminados. Então, isso que é preocupação e que a gente precisa entender”, adianta a pesquisadora. Essa acumulação pode levar a problemas de saúde a longo prazo, mesmo com um consumo intermitente.


A resiliência dos caranguejos e novas hipóteses

Um aspecto intrigante da pesquisa é que, apesar da presença dos contaminantes, os caranguejos-uçá analisados demonstraram uma “vida normal”, apresentando-se saudáveis e ativos. Essa observação levou a equipe a formular duas hipóteses principais para explicar a aparente resiliência dos crustáceos.

A primeira hipótese sugere que os caranguejos podem ter mecanismos de eliminação dos contaminantes, possivelmente através da troca da carapaça, que ocorre anualmente. “Um caminho é entender se ele manda isso [os contaminantes] embora, e uma das alternativas pode ser a carapaça, que todo ano ele troca, pode ser que ele acumule na carapaça e isso a gente está bem perto de descobrir”, revela a professora Metri.

A segunda linha de investigação foca na dieta do caranguejo-uçá, que se alimenta principalmente de folhas de mangue, ricas em tanino. O tanino é conhecido por suas propriedades antioxidantes e conservantes. A equipe de pesquisa explora se essa substância pode conferir alguma proteção aos caranguejos contra os efeitos tóxicos dos metais pesados. “Pode trazer alguma atividade antioxidante que o protege. O tanino faz durar mais as coisas”, comenta a pesquisadora, vislumbrando até mesmo um potencial para o desenvolvimento de produtos pela indústria farmacêutica a partir desses achados.

A descoberta de mercúrio e chumbo em caranguejos-uçá no litoral paranaense sublinha a complexidade dos ecossistemas costeiros e a interconexão entre saúde ambiental e humana. A continuidade das pesquisas do Rebimar e da Unespar é crucial para entender a dinâmica da contaminação, seus riscos e as possíveis soluções, garantindo a sustentabilidade da vida marinha e a segurança alimentar das comunidades. Para acompanhar de perto este e outros temas relevantes que impactam nosso estado e o Brasil, continue acessando o Fato Paulista, seu portal de notícias comprometido com informação de qualidade e contextualizada.


 


 


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